Agronegócios
Quais os riscos dos governos privatizar o BB e a Embrapa?
O Banco do Brasil (BB) e a Embrapa não podem ser privatizados de forma simples porque desempenham funções sociais e estratégicas que o mercado privado não cobre espontaneamente, sendo considerados pilares de segurança nacional e soberania alimentar. Juridicamente, o Banco do Brasil é uma sociedade de economia mista e sua venda exigiria autorização legislativa complexa do Congresso Nacional, enquanto a Embrapa é uma empresa pública de pesquisa cujos ativos de conhecimento pertencem ao Estado.
Uma eventual privatização dessas duas instituições traria profundas consequências para o agronegócio brasileiro:
1. Por que o Banco do Brasil não pode ser privatizado?
O Banco do Brasil é o maior financiador do agronegócio nacional. Sendo controlado pelo Governo Federal, ele executa políticas públicas que bancos privados evitam devido à baixa margem de lucro ou ao alto risco.
• Equalização de Juros: O BB é o principal operador do Plano Safra. Ele distribui recursos com juros subsidiados (equalizados pelo Tesouro Nacional) para pequenos e médios produtores.
• Crédito de Longo Prazo: O banco financia investimentos estruturais de longo prazo no campo (como infraestrutura e maquinário), cujos prazos de retorno não atraem bancos comerciais convencionais.
• Interiorização do Crédito: O BB mantém agências em municípios isolados, onde a atividade bancária privada não é lucrativa, garantindo que o crédito chegue aos produtores dessas regiões.
Consequências para o Agro:
• Encarecimento do Crédito Rural: Sem o BB como indutor público, as taxas de juros rurais tenderiam a subir para patamares puramente comerciais, reduzindo a rentabilidade do produtor.
• Exclusão de Pequenos Produtores: Linhas voltadas à agricultura familiar (como o Pronaf) perderiam capilaridade, pois os bancos privados priorizam o grande agronegócio corporativo, de menor risco e maior volume financeiro.
• Insegurança em Safras Ruins: Em anos de quebras de safra por fatores climáticos, um banco privado tende a cortar linhas de crédito. O BB atua de forma anticíclica, renegociando dívidas para manter o produtor ativo no mercado.
2. Por que a Embrapa não pode ser privatizada?
A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) foi a responsável por transformar o Brasil de um importador de alimentos na década de 1970 em uma superpotência agrícola. O conhecimento gerado por ela é um bem público.
• Pesquisa de Base e Longo Prazo: Desenvolver uma nova variedade de grão ou adaptar a pecuária ao clima tropical leva décadas de investimento. O setor privado busca retornos financeiros rápidos e não financia pesquisas de base de altíssimo risco.
• Banco de Germoplasma: A Embrapa detém a "Arca de Noé" genética do Brasil, com milhares de amostras de sementes e seres vivos essenciais para a segurança alimentar do país.
• Independência Científica: Sendo pública, suas recomendações e manejos visam a sustentabilidade e a produtividade real, sem o viés comercial de vender defensivos ou insumos específicos.
Consequências para o Agro:
• Monopólio de Tecnologias e Sementes: Se a Embrapa ou suas patentes fossem privatizadas, grandes multinacionais poderiam comprar seus ativos. Sementes adaptadas ao clima tropical passariam a cobrar royalties elevados, encarecendo os custos de produção.
• Abandono de Culturas Menos Lucrativas: Empresas privadas pesquisam commodities de exportação (soja, milho, algodão). Pesquisas vitais para a mesa do brasileiro, como feijão, arroz, mandioca e hortaliças, ficariam desamparadas, gerando risco de inflação de alimentos.
• Perda de Competitividade Frente a Pragas: Diante de uma nova praga ou das mudanças climáticas, a velocidade de resposta da Embrapa em criar soluções biológicas protege o agro. Sem ela, o produtor dependeria do ritmo e do preço de soluções estrangeiras.
Resumo do Cenário
Embora existam debates técnicos sobre a necessidade de modernizar a gestão da Embrapa e aumentar a eficiência dos bancos públicos, o consenso político e econômico no setor demonstra que privatizar essas instituições desestruturaria a base produtiva do agronegócio. O agro brasileiro depende da estabilidade do crédito do Banco do Brasil para plantar e da ciência da Embrapa para colher.





